quinta-feira, outubro 21

Não nascemos apenas para nós...

"Non nobis solum nati sumus ortusque nostri partem patria vindicat, partem amici." Não nascemos apenas para nós; o nosso país, os nossos amigos, reclamam uma parte de nós. Cícero escreveu estas palavras aos 62 anos, antes de ser assassinado. Entre outubro e novembro do ano 44 a.C., o pensador codificou num texto, sob forma de carta ao filho, a moral pública. "De Officiis". A República entrara em crise a seguir ao assassínio de César e a revolução ameaçava-a. Nesse tempo equívoco de confusão moral, Cícero deixou escritos os princípios e ideais do comportamento público, sabendo que a ausência de direitos políticos corrompe os valores morais e que a ausência de justiça é a sua negação. O livro tornou-se um dos pilares do pensamento moral medieval, estendendo a sua influência a São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Erasmo. Foi o segundo livro a ser impresso a seguir à Bíblia de Gutenberg.

"De Officiis" continua pleno de ensinamentos para tempos de perturbação da coisa pública, a res publica, agora com tão mau nome. Arranjámos um culpado para tudo, o Estado. É preciso acabar com este Estado antes que este Estado dê cabo de nós. Nada entretém mais os portugueses do que um bode expiatório, sobretudo quando o bode a decapitar não tem cabeça. O que é, afinal, o Estado, esse devorador da nossa inexistente riqueza? O Estado é, são as pessoas que elegemos para administrar o Estado. O Estado somos nós. "L'état c'est moi."

Todos têm uma lista de abate. Institutos, comissões, parcerias e demais aberrações administrativas criadas pela democracia portuguesa e pelos dois maiores partidos da democracia. Feche-se isto, acabe-se com aquilo. Corte-se. E começaram as inquisições e as denúncias. Instituições públicas que gastam centenas de milhares de euros em jantares de aniversário, frotas automóveis dignas de emiratos, viagens inúteis, despesas inúteis, faturas falsas. Desperdício e corrupção. Como se não se soubesse disto há décadas. Acabam as instituições. Onde vão meter as pessoas? Não podem ser despedidas. Num país onde mais de metade da população trabalha para o Estado e depende do Estado e onde outra parte colabora neste estado de coisas, teria sido digno, politicamente digno, moralmente digno, que estas baforadas de indignação tivessem nascido mais cedo.

Com as exceções do costume, denúncias direcionadas para obter um efeito político de destruição do partido rival, nunca uma voz se levantou, no PS ou no PSD, no PCP ou no CDS/PP, para dizer: basta! Este Estado, assim administrado, tem de acabar. Os partidos nomearam os seus homens de mão e de pé para as empresas públicas e as privadas que dependem das públicas e com eles negociaram e pactuaram estes anos todos, distribuindo as benesses e as clientelas. A manjedoura deu de comer a muita gente, foi uma grande agência de empregos, pagou muita casa, carro, férias, viagens e quintas. Famílias. Fortunas. Muito construtor civil fez muitos serviços para os amigos políticos. Muitos amigos políticos subiram na vida por se inscreverem e ladrarem ou baixarem as orelhas conforme o partido mandava. E toda a gente era cúmplice, incluindo os enxofrados que agora barafustam contra o atentado aos valores morais e as faturas do Estado e os maus negócios do Estado, as derrapagens do Estado.

A corrupção moral, com a qual toda a gente é complacente desde que se inventou a "cunha", deixou instalar-se em lugares dominantes um grupo aggiornato de competentes e de incompetentes e ninguém consegue distinguir uns dos outros. A culpa é do Estado. Na Dinamarca e na Suécia, onde a ética protestante impede o deboche, ninguém se lembraria de vir acusar o Estado de ter reduzido o país à bancarrota. O Estado cresceu quando a economia cresceu e começou a crescer sem honra nem projeto, para manutenção das claques. Começou a crescer com Cavaco Silva e certa quadrilha que o apoiou e continuou a crescer com António Guterres e certa matilha que o apoiou. Nomes para quê? Alguns são arguidos e outros são presidentes de conselhos de administração. Olhem para as grandes empresas e vejam quantos ex-ministros e secretários de Estado, autarcas e assessores, boys, por lá veem. Os que sobraram estão nos escritórios de advocacia, a praticar benévolo tráfico de influências, ou em Bruxelas. Ou na banca. Ou na prateleira do Estado, à espera que o vento mude. Ou reformados. Ou acumulando salários e reformas. Os do público ofício, digna ou indignamente tratando da sua vidinha e da nossa vida. Uns são inteligentes, outros são grosseiramente estúpidos, uns são melífluos, outros são bandidos. Uns trabalharam bem, outros enriqueceram e empobreceram-nos. Talvez uma nova geração venha um dia armada em Hércules e limpe os estábulos de Áugias. Eu não acredito. Vou lendo Cícero.

Texto publicado na revista Única de 16 de outubro de 2010
Clara Ferreira Alves

4 comentários:

Lima disse...

Faz falta outra revolução, mas desta vez com sangue! Acabar com esta corja de inuteis, parasitas, ladrôes, que tomou o pais de assalto, e o tem saqueado até ao ultimo tostão; até já saquearam os valores que hão de vir, atualmente o pais tem uma divida que nem daqui a muitos anos estará paga, e tudo foi parar aos ventres e contas bancarias desses parasitas desavergonhados que se têm aproveitado deste sistema em que se rouba legalmente.

Anónimo disse...

Vejam o que está acontecer na autarquia de Faro Clicando aqui!

Ninguém comenta isto?
Porque será?

Anónimo disse...

Teem que acabar com metade dos 760 mil funcionarios publicos que teem posto os portugueses na bancarota.Os sindicatos,esses tachistas,deveriam de ir a tribunal e serem condenados por dar apoio a abusos dos empregados tachistas.Essa burguesia vão dia 24 fazer greve,querem mais dinheiro e melhores condições para dormir no trabalho!

Anónimo disse...

Assim é que é Sr Pedro Cabeçadas, e outros!Estou muito grato por o ver a publicar opiniões perfeitamente apartidárias!Eu aceito autoridade e disciplina mas o que se passa no nosso País é abuso e simples roubo!A rolha vai saltar um dia!!. Concordo com o Sr Lma, e ao anónimo das 5.35 devo lembrar que os tachos não estão cá por baixo, e para haver chefias tem de haver chefiados.